Retatrutida: o que sabemos até o momento sobre o medicamento em fase de investigação

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A retatrutida é uma nova promessa científica em obesidade, diabetes tipo 2 e doença metabólica do fígado, mas ainda não é um medicamento aprovado para uso clínico no Brasil.

Nos estudos, ela aparece como retatrutide ou LY3437943, uma molécula semanal injetável desenvolvida para ativar três vias hormonais ao mesmo tempo: GIP, GLP-1 e glucagon.

A retatrutida não é apenas mais uma “caneta emagrecedora” colocada na mesma prateleira da semaglutida ou da tirzepatida.

Ela pertence a uma linha farmacológica mais agressiva do ponto de vista metabólico.

Até o momento, o que sabemos sobre a retatrutida vem de estudos clínicos de fase 2 publicados em periódicos de alto impacto e de dados recentes de fase 3.

Todavia, os dados de topline divulgados pela indústria não têm o mesmo peso de um artigo revisado por pares.

O que é retatrutida?

A retatrutida é uma molécula experimental da Eli Lilly que atua como agonista triplo dos receptores de GIP, GLP-1 e glucagon.

Em termos práticos, a molécula foi desenhada para imitar sinais hormonais envolvidos na:

  • Resposta à alimentação;
  • Secreção de insulina;
  • Saciedade;
  • Esvaziamento gástrico;
  • Metabolismo de gordura;
  • Gasto energético.

O GLP-1 já ficou conhecido por conta de medicamentos como semaglutida. Já o GIP aparece na tirzepatida.

A retatrutida acrescenta o componente do glucagon, que é justamente o ponto mais discutido da molécula, porque essa via pode aumentar a oxidação de gordura e o gasto energético.

A Eli Lilly descreve a retatrutida como uma molécula investigacional de aplicação subcutânea semanal, disponível apenas dentro de estudos clínicos conduzidos pela empresa.

A FDA também afirma que retatrutida não é componente de medicamento aprovado e não foi considerada segura para nenhuma condição até o momento.

Como a retatrutida age no organismo?

A retatrutida age em três frentes.

Pelo receptor de GLP-1, ela tende a reduzir o apetite, retardar o esvaziamento gástrico e melhorar a resposta glicêmica após as refeições.

Pelo receptor de GIP, a retatrutida atua em vias relacionadas à secreção de insulina dependente da glicose e ao metabolismo energético.

Esse mecanismo, com a tirzepatida, já demonstrou que o eixo GIP/GLP-1 pode ampliar a perda de peso em comparação com estratégias baseadas apenas no GLP-1.

Pelo receptor de glucagon, a retatrutida entra em uma área mais interessante.

O glucagon não é apenas “o hormônio oposto da insulina”; ele participa da regulação hepática, da mobilização de energia e do gasto metabólico.

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O que os estudos mostram sobre retatrutida e perda de peso?

O principal estudo de fase 2 em obesidade foi publicado no New England Journal of Medicine em 2023.

Foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, com adultos com obesidade ou sobrepeso associado a comorbidade, sem diabetes tipo 2.

Os participantes receberam retatrutida em diferentes doses semanais ou placebo durante 48 semanas.

Foi um ensaio clínico com comparação direta contra placebo, mascaramento dos grupos e avaliação prospectiva de perda de peso.

Nos resultados, a retatrutida produziu redução média de peso de até 17,5% em 24 semanas e até 24,2% em 48 semanas na dose mais alta estudada.

O placebo ficou muito abaixo disso, com cerca de 1,6% em 24 semanas e 2,1% em 48 semanas.

A retatrutida mostrou perda ponderal expressiva antes mesmo de a curva de peso parecer completamente estabilizada.

No estudo de fase 2, reduções de 5%, 10% e 15% do peso corporal apareceram em grande parte dos pacientes tratados, especialmente nas doses maiores.

Isso tem relevância clínica porque perdas acima de 10% já costumam alterar risco cardiometabólico de maneira mais consistente do que reduções discretas de peso.

O que a fase 3 acrescentou sobre retatrutida?

Em maio de 2026, a Eli Lilly divulgou resultados de topline do estudo TRIUMPH-1, um ensaio de fase 3 com 2.339 adultos com obesidade ou sobrepeso, pelo menos uma comorbidade relacionada ao peso e sem diabetes.

O estudo comparou retatrutida 4 mg, 9 mg, 12 mg e placebo durante 80 semanas.

Os dados divulgados indicaram perda média de 19,0% com 4 mg, 25,9% com 9 mg e 28,3% com 12 mg em 80 semanas, contra 2,2% no placebo.

Na dose de 12 mg, 45,3% dos participantes atingiram perda de pelo menos 30% do peso corporal, um patamar que aproxima a conversa farmacológica de resultados historicamente associados à cirurgia bariátrica.

O TRIUMPH-1 é importante por tamanho amostral, duração e fase de desenvolvimento, mas os dados completos ainda precisam de apresentação detalhada e publicação revisada por pares.

A retatrutida teve um sinal de eficácia muito forte, mas a análise completa de segurança, subgrupos e desfechos secundários ainda é inconsistente.

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Retatrutida e diabetes tipo 2: o que já foi observado?

A retatrutida também está sendo estudada para diabetes tipo 2.

Em 2023, um estudo de fase 2 publicado no The Lancet avaliou adultos com diabetes tipo 2, comparando diferentes doses de retatrutida com placebo e dulaglutida, um agonista de GLP-1 já conhecido.

O desenho foi randomizado, duplo-cego, duplo-dummy, controlado por placebo e por comparador ativo, realizado em 42 centros nos Estados Unidos.

Esse estudo analisou o controle glicêmico e o peso corporal.

A retatrutida reduziu a hemoglobina glicada de forma clinicamente relevante e também produziu perda de peso robusta.

Na dose de 12 mg, a redução média de peso chegou a 16,9% ao longo do estudo, enquanto o placebo ficou em torno de 3,0%.

Em 2026, uma fase 3 também publicada no The Lancet, chamada TRANSCEND-T2D-1, avaliou retatrutida como monoterapia em pessoas com diabetes tipo 2 inadequadamente controlado apenas com dieta e exercício.

Foi um ensaio de 40 semanas, randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, realizado em 48 centros nos Estados Unidos, México e Índia.

Nesse estudo, os participantes que receberam retatrutida tiveram queda média de HbA1c em torno de 1,7 a 1,9 ponto percentual, contra 0,8 no placebo.

A perda de peso média ficou entre 11,5% e 15,3% com retatrutida, contra 2,6% com placebo, além de melhora em marcadores como colesterol e pressão arterial.

Retatrutida e gordura no fígado

A retatrutida também foi analisada em um subestudo envolvendo doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica.

Esse ensaio avaliou participantes que tinham pelo menos 10% de gordura hepática, medindo a mudança relativa da gordura no fígado ao longo do tratamento.

O resultado foi incomum: a retatrutida levou a reduções expressivas de gordura hepática, com queda de até 82% em dados de fase 2.

Esse achado é relevante porque uma terapia capaz de atuar no peso e no fígado poderia ter impacto além da balança.

Ainda assim, o dado não autoriza tratar a retatrutida como medicamento aprovado para gordura no fígado.

Quais efeitos colaterais apareceram com a retatrutida?

O padrão de eventos adversos observado até agora se parece com o de medicamentos incretínicos: náuseas, vômitos, diarreia, constipação e outros sintomas gastrointestinais.

No estudo de fase 3 em diabetes tipo 2, os eventos gastrointestinais foram descritos como leves a moderados e diminuíram ao longo do tempo.

No mesmo estudo, a interrupção do tratamento por eventos adversos ocorreu em 2% a 5% dos participantes tratados com retatrutida e em 0% no placebo.

Não houve relato de hipoglicemia grave nesse ensaio específico.

O que falta responder é como a retatrutida se comporta no uso prolongado, em populações heterogêneas, em pacientes com múltiplas doenças e em comparação direta com medicamentos já aprovados.

Retatrutida no Brasil: é aprovada pela Anvisa?

Não. A retatrutida não tem aprovação da Anvisa para uso clínico no Brasil.

Em janeiro de 2026, a Anvisa determinou a apreensão e a proibição de comercialização, fabricação, importação, divulgação e uso de produtos vendidos como retatrutida de todas as marcas e lotes, por se tratarem de produtos irregulares sem registro, notificação ou cadastro.

A Diretoria de Vigilância Sanitária de Santa Catarina também publicou alerta destacando que a retatrutida é um medicamento experimental, em fase 3, ainda sem aprovação regulatória para uso rotineiro.

O alerta reforça o risco de produtos vendidos por redes sociais, aplicativos de mensagem, sites não regularizados e vendedores informais.

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O que ainda não sabemos sobre a retatrutida?

A retatrutida tem dados impressionantes, mas ainda não encerrou as perguntas mais importantes.

A primeira delas é a segurança de longo prazo, especialmente porque a ativação do receptor de glucagon acrescenta um componente metabólico menos familiar ao uso amplo na obesidade.

A segunda é a comparação direta com terapias já disponíveis.

Resultados de estudos separados ajudam, mas não substituem ensaios desenhados para comparar a retatrutida contra semaglutida, tirzepatida ou outras estratégias sob as mesmas condições.

A terceira é a manutenção do peso após a suspensão.

No subestudo de MASLD, houve algum reganho de peso no seguimento de segurança após a interrupção, o que reforça uma discussão já conhecida na obesidade: a doença tende a exigir tratamento crônico, não apenas uma intervenção curta.

A retatrutida ainda é um medicamento em desenvolvimento, não uma solução disponível para uso informal.

PERGUNTAS FREQUENTES

A retatrutida pode ser manipulada?

O medicamento ainda está em investigação clínica e não deve ser comprado, manipulado, vendido informalmente ou usado fora de estudos autorizados.

Retatrutida tem preço no Brasil?

Não existe preço oficial no Brasil. Como ainda não foi aprovada pela Anvisa, qualquer valor anunciado no mercado deve ser visto como sinal de produto irregular ou sem garantia sanitária.

Qual a diferença para a tirzepatida?

A tirzepatida atua em dois receptores hormonais: GIP e GLP-1. A retatrutida atua em três: GIP, GLP-1 e glucagon, por isso é chamada de agonista triplo em estudos clínicos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Anvisa determina apreensão de canetas emagrecedoras sem registro. Brasília: Anvisa, 23 fev. 2026.

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ELI LILLY AND COMPANY. What to know about retatrutide. Indianapolis: Eli Lilly and Company, 2026. Atualizado em: jun. 2026.

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ROSENSTOCK, Julio et al. Retatrutide, a GIP, GLP-1 and glucagon receptor agonist, for people with type 2 diabetes: a randomised, double-blind, placebo and active-controlled, parallel-group, phase 2 trial conducted in the USA. The Lancet, v. 402, n. 10401, p. 529-544, 2023. DOI: 10.1016/S0140-6736(23)01053-X.

*Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação individual, o diagnóstico ou o tratamento conduzido por médico ou nutricionista. As informações apresentadas não devem ser aplicadas sem orientação profissional.

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