Um estudo de 2025 mostrou que pessoas com maior consumo de ultraprocessados apresentaram até 58% mais risco de depressão persistente.
O trabalho acompanhou mais de 14 mil brasileiros durante oito anos e reforça: o que vai para o prato também influencia o funcionamento do cérebro.
O que o estudo descobriu sobre o risco de depressão
A pesquisa foi liderada pela pós-doutoranda Naomi Ferreira, da Faculdade de Medicina da USP, com apoio de pesquisadores da área de geriatria, psiquiatria e saúde pública.
O trabalho utilizou dados do ELSA-Brasil, um dos maiores estudos epidemiológicos do país, que acompanha a saúde de servidores públicos em seis capitais brasileiras.
Os participantes tinham entre 35 e 74 anos e foram acompanhados entre 2008 e 2019.
Durante o acompanhamento, os pesquisadores avaliaram padrões alimentares, estilo de vida e sintomas psiquiátricos dos participantes.
Os resultados mostraram que:
- Pessoas com maior consumo de ultraprocessados tiveram 30% mais risco de apresentar o primeiro episódio depressivo;
- Quem consumia mais desses alimentos apresentou até 58% mais risco de depressão persistente;
- Participantes com alimentação baseada em alimentos minimamente processados não desenvolveram depressão durante o período analisado.
Os resultados não analisaram apenas episódios isolados da doença, como também a permanência dos sintomas ao longo do tempo.
O artigo está disponível on-line e pode ser lido aqui.

O que são alimentos ultraprocessados?
Os ultraprocessados são produtos industrializados formulados com grande quantidade de aditivos químicos, açúcares, gorduras refinadas, sódio e ingredientes de baixa qualidade nutricional.
Entram nessa lista:
- Refrigerantes;
- Salgadinhos;
- Biscoitos recheados;
- Embutidos;
- Macarrão instantâneo;
- Fast food;
- Refeições congeladas prontas;
- Cereais açucarados;
- Doces industrializados.
Segundo os pesquisadores, esses alimentos podem provocar alterações em mecanismos ligados à inflamação e ao funcionamento cerebral.
Neuroinflamação e risco de depressão
A ciência já demonstra que processos inflamatórios crônicos estão associados ao aumento do risco de depressão.
Dietas ricas em ultraprocessados favorecem esse cenário inflamatório.
Além disso, nutrientes essenciais para o funcionamento cerebral acabam ficando em falta.
Vitaminas do complexo B, magnésio, zinco, ômega-3 e antioxidantes ajudam na produção adequada de neurotransmissores ligados ao humor, como serotonina e dopamina.
Quando a alimentação perde densidade nutricional, o cérebro é um dos primeiros a sentir os impactos.

O papel do intestino no risco de depressão
Outro ponto importante levantado pelos pesquisadores envolve o eixo intestino-cérebro.
Hoje, já se sabe que a microbiota intestinal participa da regulação do humor, da resposta inflamatória e até da produção de neurotransmissores.
Dietas ricas em ultraprocessados tendem a prejudicar esse equilíbrio intestinal.
O excesso de emulsificantes, corantes artificiais e aditivos químicos pode alterar a composição das bactérias intestinais, favorecendo um ambiente inflamatório.
Em paralelo, a baixa ingestão de fibras reduz a diversidade da microbiota, comprometendo ainda mais a comunicação entre intestino e cérebro.
Pequenas mudanças já fazem diferença
Um dos pontos ressaltados no estudo foi mostrar que mudanças simples na alimentação podem gerar impacto relevante na saúde mental.
Os cientistas observaram que:
- Substituir apenas 5% dos ultraprocessados por alimentos minimamente processados reduziu o risco de depressão em 6%;
- Substituir 20% reduziu o risco em 22%.
Isso significa que mudanças graduais podem fazer diferença real na saúde mental.
Outros fatores associados à depressão
Todavia, os pesquisadores reforçam que a alimentação não atua sozinha.
O estudo identificou outros fatores frequentemente associados ao maior risco de depressão, como:
- Sedentarismo;
- Sono ruim;
- Tabagismo;
- Consumo excessivo de álcool;
- Estresse crônico;
- Excesso de peso;
- Baixa renda.
Ao mesmo tempo, pessoas fisicamente ativas e com hábitos saudáveis tinham menor probabilidade de desenvolver a condição.
Em outras palavras: a saúde mental não depende de um único fator isolado.
Dieta mediterrânea pode ajudar na proteção cerebral
Os pesquisadores citam a dieta mediterrânea como um dos padrões alimentares mais associados à proteção da saúde mental.
Essa dieta fornece antioxidantes, fibras, vitaminas e gorduras boas que ajudam a reduzir inflamações e proteger o cérebro.
Clicando aqui, você pode conferir um artigo completo sobre a dieta mediterrânea.

O aumento dos ultraprocessados preocupa especialistas
O crescimento do consumo de ultraprocessados não acontece por acaso.
Esses produtos são baratos, práticos, altamente palatáveis e possuem longa duração nas prateleiras.
Na rotina corrida, acabam ocupando espaço cada vez maior na alimentação da população.
O problema é que, ao longo dos anos, podem trazer consequências não apenas para o peso e metabolismo, mas também para a saúde mental.
Hoje, já existem evidências ligando ultraprocessados ao aumento do risco de:
- Obesidade;
- Diabetes tipo 2;
- Doenças cardiovasculares;
- Declínio cognitivo;
- Ansiedade;
- Depressão.
Saúde mental também começa no prato
A depressão é uma condição complexa e nunca deve ser reduzida apenas à alimentação.
Mas ignorar o impacto dos hábitos alimentares não faz mais sentido diante das evidências científicas recentes.
Cuidar da alimentação não significa apenas emagrecer ou melhorar exames.
Em muitos casos, é também uma forma de proteger o cérebro, reduzir inflamações e melhorar qualidade de vida no longo prazo.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ferreira NV, Gonçalves NG, Khandpur N, et al. Higher ultraprocessed food consumption is associated with depression persistence and higher risk of depression incidence in the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health. The American Journal of Clinical Nutrition. 2025.
Global, regional, and national burden of 12 mental disorders in 204 countries and territories, 1990–2019: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2019. Lancet Psychiatr. 2022.
American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. DSM-5-TR. American Psychiatric Association Publishing. 2022.
Liu, Q. He, H. Yang, J. Changes in the global burden of depression from 1990 to 2017: Findings from the Global Burden of Disease study. J Psychiatr Res. 2020.






