Os pontos de corte do índice de massa corporal, conhecido pela sigla IMC, continua sendo uma das ferramentas mais utilizadas para avaliar o estado nutricional da população.
Simples, rápido e acessível, ele faz parte da rotina de consultórios, academias, pesquisas e campanhas de saúde pública.
Ainda assim, o método vem sendo questionado por sua dificuldade em diferenciar gordura corporal de massa muscular, especialmente em pessoas jovens.
Agora, uma pesquisa brasileira sugere novos pontos de corte do IMC para homens e mulheres de 18 anos, com resultados mais precisos na identificação do excesso de adiposidade corporal.
O que é IMC?
O IMC é calculado a partir da divisão do peso pela altura ao quadrado. O resultado serve como referência para classificar baixo peso, eutrofia, sobrepeso e obesidade.
Segundo os critérios da Organização Mundial da Saúde, os valores são classificados da seguinte forma:

Apesar de sua popularidade, o IMC possui limitações, visto que não consegue distinguir se o peso corporal vem de gordura, músculo, retenção hídrica ou estrutura óssea.
Isso significa que uma pessoa com alta massa muscular pode apresentar IMC elevado sem excesso de gordura.
Da mesma forma, alguém com percentual de gordura alto pode aparecer dentro da faixa considerada normal.
Esse problema fica ainda mais evidente entre adolescentes e jovens adultos, fase marcada por mudanças hormonais, crescimento e alterações na composição corporal.

Estudo brasileiro propõe novos pontos de corte para o IMC
Pesquisadores brasileiros conduziram um estudo em Pelotas, no Rio Grande do Sul, acompanhando 3.489 indivíduos desde os primeiros meses de vida até os 18 anos de idade.
O objetivo foi identificar pontos de corte mais eficientes para detectar excesso de gordura corporal em jovens adultos.
Para isso, os cientistas utilizaram a pletismografia por deslocamento de ar, considerada um método confiável para análise da composição corporal.
Além do IMC, os pesquisadores avaliaram:
- Massa de gordura;
- Massa livre de gordura;
- Percentual de gordura corporal.
Os participantes foram classificados com excesso de adiposidade quando apresentavam:
- 20% ou mais de gordura corporal nos homens
- 33% ou mais de gordura corporal nas mulheres
A partir das análises estatísticas, os pesquisadores encontraram valores de IMC mais sensíveis para identificar excesso de gordura em jovens de 18 anos.

Quais foram os novos pontos de corte encontrados?
Os resultados mostraram que os melhores valores para identificar excesso de adiposidade foram:
- IMC igual ou superior a 24,0 kg/m² para homens;
- IMC igual ou superior a 23,5 kg/m² para mulheres.
Na prática, isso significa que alterações metabólicas e excesso de gordura corporal podem aparecer antes mesmo de o indivíduo atingir o tradicional IMC de 30 kg/m² usado para definir obesidade.
Os novos parâmetros apresentaram desempenho muito melhor para detectar excesso de gordura corporal.
Entre os principais resultados observados:
- A sensibilidade foi mais de duas vezes maior em comparação ao IMC tradicional de obesidade;
- O modelo conseguiu identificar mais indivíduos com excesso de gordura que passariam despercebidos pelos critérios antigos;
- A precisão ficou próxima do ponto de corte clássico de sobrepeso, mas muito superior ao critério de obesidade.
Os pesquisadores afirmam que o ponto de corte de 30 kg/m² deixou de identificar corretamente grande parte dos jovens com excesso de adiposidade.
Por que homens e mulheres apresentam pontos de corte diferentes?
A diferença entre homens e mulheres está relacionada à composição corporal e à ação hormonal.
As mulheres tendem a acumular mais gordura subcutânea, principalmente em regiões como quadris e coxas.
Esse padrão é influenciado pelos hormônios femininos e faz parte de adaptações biológicas relacionadas à fertilidade, gestação e amamentação.
Já os homens costumam apresentar maior quantidade de massa muscular e menor percentual de gordura corporal total, principalmente por influência da testosterona.
Outro fator relevante envolve o padrão de atividade física, que historicamente tende a ser maior entre homens jovens, contribuindo para diferenças na composição corporal.
Por isso, utilizar um único ponto de corte para ambos os sexos pode reduzir a precisão da avaliação.
Pontos de corte do IMC não definem diagnóstico isoladamente
Embora o estudo mostre avanços importantes, os próprios pesquisadores reforçam que o IMC não deve ser utilizado isoladamente como diagnóstico definitivo de obesidade.
Hoje, diretrizes mais recentes recomendam associar o IMC a outras medidas antropométricas e metabólicas, como:
- Circunferência abdominal;
- Relação cintura-estatura;
- Relação cintura-quadril;
- Percentual de gordura corporal;
- Avaliação clínica e exames laboratoriais.
Esse conjunto de informações oferece uma visão mais ampla sobre o risco cardiometabólico do indivíduo.
O que os resultados desse estudo indicam?
Os achados reforçam uma discussão que cresce há anos dentro da nutrição e da medicina: os pontos de corte IMC continuam úteis, mas precisa ser interpretado com mais individualização.
Ao ajustar os pontos de corte para jovens adultos, os pesquisadores acreditam que seria possível aumentar em cerca de 20% a identificação de pessoas com excesso de gordura corporal.
Isso pode favorecer diagnósticos mais precoces, estratégias preventivas e intervenções nutricionais mais direcionadas, antes que complicações metabólicas se instalem.

O futuro da avaliação nutricional
O IMC dificilmente deixará de ser utilizado em larga escala. Ele continua sendo uma ferramenta prática, barata e importante em estudos populacionais.
No entanto, a tendência é que sua interpretação fique cada vez mais refinada.
A combinação entre medidas corporais, exames de composição corporal e avaliação clínica tende a oferecer diagnósticos mais realistas, especialmente em populações jovens.
O estudo brasileiro amplia essa discussão e mostra que pequenos ajustes nos critérios podem gerar diferenças importantes na identificação do excesso de adiposidade.
Portanto, se você deseja avaliar sua composição corporal de forma precisa e entender além do número mostrado na balança, o acompanhamento nutricional faz toda a diferença.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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R.H. Eckel et al. The metabolic syndrome. Lancet. (2005).






