A balança pode subir na mesma semana em que uma nova cartela é iniciada, enquanto os seios ficam sensíveis, o abdômen parece mais cheio e a roupa aperta.
Nessa sequência, concluir que o anticoncepcional engorda parece lógico, embora aqueles quilos possam reunir líquido, conteúdo intestinal, gordura corporal e variações comuns do ciclo.
As fórmulas também estão longe de produzir o mesmo efeito.
As pílulas combinadas atuais apresentam pouca evidência de ganho expressivo, enquanto o anticoncepcional injetável trimestral com acetato de medroxiprogesterona aparece com maior consistência em aumento de gordura corporal.
Quando parece que o anticoncepcional engorda, o que realmente mudou?
O peso corporal inclui a gordura, os músculos, a água, o glicogênio e o conteúdo presente no sistema digestivo.
Uma elevação rápida, acompanhada de mamas inchadas, anéis apertados e oscilação ao longo da semana, apresenta características diferentes de um aumento gradual da cintura durante vários meses.
O estrogênio das fórmulas combinadas pode interferir no sistema responsável pelo equilíbrio de sódio e água.
Esse efeito ajuda a explicar por que algumas usuárias sentem o corpo mais pesado nas primeiras cartelas, ainda que a quantidade de tecido adiposo permaneça inalterada.
Os progestagênios também possuem comportamentos distintos.
A drospirenona apresenta atividade antimineralocorticoide, enquanto o levonorgestrel, o desogestrel, o gestodeno e a noretisterona possuem outros perfis hormonais.
Porém, essas diferenças farmacológicas não formam uma classificação confiável de “anticoncepcionais que engordam” e “anticoncepcionais que emagrecem”.
O ganho de gordura costuma apresentar alguns sinais mais consistentes:
- A média semanal do peso sobe progressivamente, sem retornar ao valor anterior;
- A circunferência abdominal aumenta quando é medida nas mesmas condições;
- A fome, os beliscos ou o tamanho das porções mudam após o início do método;
- A alteração permanece durante vários ciclos, em vez de oscilar apenas ao longo do mês.

Tabela: tipos de anticoncepcional e impacto na composição corporal
Os estudos abaixo mediram desfechos diferentes:
| Fórmula | Modelo e duração do estudo | Impacto no peso |
| Combinado: etinilestradiol + levonorgestrel | Dois ensaios randomizados e controlados por placebo, com 704 mulheres durante seis ciclos. | O grupo hormonal ganhou 0,72 kg e o placebo, 0,56 kg. (PubMed) |
| Combinado: etinilestradiol + drospirenona | Estudo clínico observacional com 38 mulheres, bioimpedância e acompanhamento por seis ciclos. | A gordura e a massa livre de gordura não mudaram significativamente. (PubMed) |
| Métodos somente com progestagênio | Revisão sistemática de 22 estudos, 11.450 mulheres acompanhadas por seis ou 12 meses. | Na maioria, o ganho médio ficou abaixo de 2 kg em seis ou 12 meses.(Cochrane) |
| Implante de levonorgestrel | Ensaio aberto randomizado, com 414 mulheres alocadas para inserção imediata ou após três meses. | A mediana subiu 0,5 kg no grupo do implante e 0 kg no controle. (CDC) |
| DIU hormonal com levonorgestrel | Estudo prospectivo com 76 mulheres, comparado ao DIU de cobre durante 12 meses. | O grupo hormonal ganhou 2,5% de gordura e perdeu 1,4% de massa magra. O aumento foi de 2,9 kg contra 1,4 kg. (PubMed) |
| DMPA injetável | Estudo prospectivo com 97 mulheres recrutadas e 26 pares avaliados por DEXA após 12 meses. | O grupo DMPA ganhou 1,9 kg, enquanto o peso permaneceu estável no grupo do DIU de cobre. (PubMed) |
A fórmula combinada do anticoncepcional engorda mais?
A pílula combinada reúne um estrogênio, geralmente o etinilestradiol, e um progestagênio.
A dose estrogênica costuma variar entre 20 e 35 microgramas, mas escolher a menor quantidade disponível não garante que o peso permanecerá estável.
As fórmulas com drospirenona podem causar menos sensação de retenção em algumas mulheres devido à ação sobre o equilíbrio de água e sódio.
O desogestrel, o gestodeno e o acetato de ciproterona apresentam propriedades diferentes, sobretudo quanto às ações androgênicas, mas os ensaios disponíveis não sustentam uma diferença previsível de peso entre essas opções.
Portanto, quando alguém afirma que determinado anticoncepcional engorda menos, vale verificar se está descrevendo uma redução da retenção ou uma mudança real na gordura corporal.
São resultados distintos, embora a balança possa registrá-los da mesma maneira.

Anticoncepcional sem estrogênio engorda? Minipílula, implante e DIU
A ausência de estrogênio reduz um possível componente de retenção relacionado às fórmulas combinadas, mas não torna todos os métodos com progestagênio equivalentes.
A minipílula circula pelo organismo diariamente, o implante libera hormônio continuamente e o DIU hormonal apresenta uma ação predominantemente uterina.
Para a minipílula, os dados sobre peso ainda são menos robustos do que para as pílulas combinadas.
A maior parte das pesquisas agrupa diferentes progestagênios e métodos, dificultando afirmar que a noretisterona, o desogestrel ou a drospirenona isolada possuem o mesmo comportamento corporal.
O implante também admite respostas bastante variadas.
Algumas usuárias relatam maior apetite e ganho progressivo, enquanto outras mantêm as medidas.
Além disso, os resultados obtidos com um implante de levonorgestrel não podem ser transferidos integralmente para o implante de etonogestrel.
O DIU hormonal libera levonorgestrel em doses menores na circulação do que os métodos orais ou implantáveis.
Estudos observacionais encontraram alterações pequenas e inconsistentes, inclusive porque as usuárias do DIU de cobre, utilizado como comparação sem hormônio, também podem ganhar peso com o passar do tempo.
Assim, uma mudança ocorrida após a colocação do DIU merece investigação, mas a coincidência temporal não comprova sozinha que o anticoncepcional engorda.
Por que o anticoncepcional injetável engorda com maior frequência?
Entre os métodos avaliados, o injetável trimestral de acetato de medroxiprogesterona, conhecido como DMPA, apresenta a associação mais consistente com ganho de peso.
Uma análise secundária do ensaio ECHO, um estudo multicêntrico, aberto e randomizado, distribuiu 7.829 mulheres entre DMPA intramuscular, implante de levonorgestrel e DIU de cobre.
Entre as 7.014 participantes com dados utilizáveis após 12 a 18 meses, os aumentos médios foram de 3,5 kg, 2,4 kg e 1,5 kg, respectivamente.
A diferença atribuível entre o DMPA e o DIU de cobre foi de 2,02 kg. O estudo pode ser consultado no PubMed.
O fato de todos os grupos terem aumentado de peso é importante: parte da mudança teria ocorrido independentemente do anticoncepcional.
Ainda assim, a diferença entre os métodos indica que o DMPA acrescentou um efeito mensurável nessa população.
Por essa razão, quem já apresentou ganho importante com outros progestagênios ou possui grande preocupação com a composição corporal deve discutir esse histórico antes da primeira dose.

Como descobrir se o anticoncepcional engorda no seu caso
O peso isolado de uma manhã oferece pouca informação; uma média de três pesagens semanais, obtidas em condições semelhantes, mostra a tendência com muito mais clareza.
Durante os meses seguintes, vale acompanhar:
- A circunferência da cintura e do abdômen a cada duas ou quatro semanas;
- A presença de inchaço nas mãos, nas mamas, no rosto ou nas pernas;
- As mudanças na fome, na saciedade e na vontade de comer alimentos específicos;
- A frequência intestinal, a atividade física, o sono e o período do ciclo;
- A data de início, o nome da fórmula e qualquer outro medicamento utilizado.
Uma elevação superior a 5% do peso inicial nos primeiros seis meses de DMPA merece atenção, pois as recomendações clínicas do CDC consideram esse padrão um possível marcador de ganho posterior.
O órgão recomenda registrar o peso e o IMC antes do método para facilitar a comparação durante o acompanhamento.
Se o seu peso ou a sua fome mudaram após o início do anticoncepcional, agende uma consulta nutricional aqui.
O acompanhamento permite investigar a mudança com medidas comparáveis e construir uma estratégia alimentar adequada à sua rotina e ao método prescrito.
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