Em 2025, a Sociedade Europeia de Cardiologia e a Sociedade Europeia de Aterosclerose publicaram uma atualização das diretrizes para o tratamento das dislipidemias.
O documento traz mudanças no cálculo do risco cardiovascular, novas terapias para redução do LDL-C e reconhecimento da lipoproteína como marcador relevante para doença cardiovascular.
Entre os destaques estão os novos algoritmos SCORE2 e SCORE2-OP, o avanço de terapias além das estatinas e a recomendação de medir a lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida.
Como as diretrizes avaliam o risco cardiovascular?
Além de mudanças no tratamento das dislipidemias, a nova diretriz europeia passou a recomendar o uso dos algoritmos SCORE2 e SCORE2-OP para estimar o risco cardiovascular.
O SCORE2 e o SCORE2-OP são ferramentas usadas para calcular o risco cardiovascular de uma pessoa nos próximos 10 anos.
Eles ajudam médicos a estimar a chance de eventos como infarto, AVC e morte cardiovascular antes mesmo de a doença aparecer.
Esses modelos foram desenvolvidos pela Sociedade Europeia de Cardiologia em conjunto com a Sociedade Europeia de Aterosclerose e passaram a ser recomendados nas diretrizes mais recentes para dislipidemias.
O SCORE2 calcula o risco de doenças cardiovasculares fatais e não fatais em pessoas:
- Entre 40 e 70 anos;
- Aparentemente saudáveis;
- Sem doença cardiovascular já diagnosticada;
- Sem diabetes avançado;
- Ausente de doença renal crônica grave.
O cálculo leva em consideração fatores como:
- Idade;
- Sexo;
- Pressão arterial;
- Colesterol;
- Tabagismo.
A partir dessas informações, o sistema estima o percentual de risco cardiovascular em 10 anos.
As ferramentas podem ser acessadas pelo site oficial da ESC/EAS.
E o SCORE2-OP?
O SCORE2-OP é uma adaptação voltada para idosos acima de 70 anos.
O “OP” vem de “Older Persons”, expressão usada para pessoas mais velhas.
A ferramenta foi criada porque o risco cardiovascular nessa faixa etária funciona de maneira diferente.

Qual a diferença entre os modelos antigos?
Antes, os cálculos priorizavam principalmente o risco de morte cardiovascular. O SCORE2 inclui também eventos não fatais, como infarto e AVC sem morte.
Isso torna a avaliação mais realista para a prática clínica, pois o SCORE2 ajuda a definir:
- Necessidade de tratamento para colesterol;
- Intensidade da terapia com estatinas;
- Metas de LDL-C;
- Urgência de mudanças no estilo de vida;
- Acompanhamento mais próximo de pacientes de maior risco.
Categorias de risco cardiovascular segundo as novas diretrizes para dislipidemias
A atualização das diretrizes ESC/EAS reorganizou as categorias de risco cardiovascular para facilitar a definição das metas terapêuticas de LDL-C.
Risco cardiovascular muito alto
Entram nessa categoria pessoas com:
- Doença cardiovascular aterosclerótica documentada;
- Infarto prévio, AVC, angina instável ou doença arterial periférica;
- Diabetes com lesão de órgão-alvo;
- Diabetes associado a múltiplos fatores de risco;
- Doença renal crônica grave.
- SCORE2 ou SCORE2-OP ≥20%;
- Hipercolesterolemia familiar associada a outro fator de risco importante.
Risco cardiovascular alto
Inclui pacientes com:
- LDL-C acima de 190 mg/dL;
- Pressão arterial ≥180/110 mmHg;
- Hipercolesterolemia familiar sem outros fatores de risco;
- Diabetes com mais de 10 anos;
- Doença renal crônica moderada;
- SCORE2 entre 10% e 20%.
Risco moderado e baixo
São considerados de risco moderado:
- Jovens com diabetes de curta duração;
- Pessoas com SCORE2 entre 2% e 10%.
Pacientes com SCORE2 inferior a 2% são consideradas “Risco Baixo”.

Modificadores de risco cardiovascular ganham mais importância
A diretriz reforça que alguns fatores podem aumentar o risco cardiovascular, mesmo quando o cálculo parece favorável.
Esses chamados “modificadores de risco” podem justificar uma reclassificação para categorias mais elevadas e incluem:
- Histórico familiar de doença cardiovascular precoce;
- Obesidade;
- Sedentarismo;
- Privação social;
- Estresse crônico;
- Apneia obstrutiva do sono;
- Doenças inflamatórias crônicas;
- Menopausa precoce;
- Pré-eclâmpsia;
- HIV;
- Transtornos psiquiátricos graves.
A diretriz também destaca biomarcadores específicos, especialmente:
- PCR-us persistentemente elevada;
- Lipoproteína(a) acima de 50 mg/dL;
- Terapia farmacológica como prevenção primária.

Diretrizes ESC/EAS: quando é necessário o uso de medicamentos?
Mesmo com alimentação equilibrada, prática de atividade física e controle do peso, muitos pacientes precisam de terapia medicamentosa para redução do LDL-C.
Segundo as diretrizes ESC/EAS, o tratamento farmacológico é recomendado para:
- Pacientes de risco muito alto com LDL-C ≥70 mg/dL;
- Pacientes de risco alto com LDL-C ≥100 mg/dL.
A diretriz também orienta considerar medicação em situações intermediárias, especialmente quando outros modificadores de risco estão presentes.
O objetivo é iniciar intervenções mais precoces antes da ocorrência de eventos cardiovasculares maiores, como infarto agudo do miocárdio e AVC.
A diretriz oficial da ESC/EAS pode ser acessada no portal da European Society of Cardiology.
Novos tratamentos para redução do LDL-C
Além das estatinas, a atualização trouxe destaque para medicamentos mais recentes, principalmente em pacientes intolerantes ou que não atingem as metas terapêuticas.
Ácido bempedoico
O ácido bempedoico é um pró-fármaco oral que atua na síntese hepática de colesterol.
Diferente das estatinas, ele não é ativado no músculo esquelético, o que reduz a chance de sintomas musculares.
Estudos demonstraram redução aproximada de 23% no LDL-C e diminuição de 13% em eventos cardiovasculares maiores.
O acompanhamento deve incluir atenção ao aumento do ácido úrico e risco de gota.
Inclisiran
O inclisiran utiliza tecnologia de RNA de interferência para reduzir a produção de PCSK9.
Os estudos atuais mostram redução próxima de 50% do LDL-C, embora os grandes ensaios de desfecho cardiovascular ainda estejam em andamento.
Evinacumabe
O evinacumabe é um anticorpo monoclonal indicado especialmente para hipercolesterolemia familiar homozigótica.
Seu uso tem mostrado efeito importante na redução do LDL-C em pacientes com formas graves e de difícil controle.
Lipoproteína(a): um biomarcador cada vez mais relevante
A lipoproteína(a), também chamada de Lp(a), ganhou mais importância nas novas diretrizes ESC/EAS sobre o tratamento das dislipidemias.
As evidências mais recentes mostram que níveis elevados dessa partícula estão associados diretamente ao desenvolvimento de doença cardiovascular aterosclerótica e estenose da válvula aórtica.
Diferente do LDL-C, a Lp(a) é determinada quase totalmente pela genética e sofre pouca influência do estilo de vida.
Por isso, a recomendação atual é que todos os adultos meçam a Lp(a) pelo menos uma vez na vida.
O rastreio se torna ainda mais importante em pessoas com:
- Histórico familiar de doença cardiovascular precoce;
- Hipercolesterolemia familiar;
- Eventos cardiovasculares em idade jovem.
Segundo a diretriz, o risco cardiovascular começa a aumentar entre 30 e 50 mg/dL e se torna clinicamente relevante acima de 50 mg/dL.
Apesar disso, ainda não existem terapias aprovadas especificamente para redução da Lp(a) com benefício comprovado em desfechos cardiovasculares.
Na prática, a estratégia atual continua sendo controlar os demais fatores de risco, principalmente o LDL-C.
Suplementação nutricional realmente reduz risco cardiovascular?
A atualização europeia também revisou o papel dos suplementos nutricionais na prevenção cardiovascular.
A conclusão é que faltam evidências convincentes de benefício clínico para a maioria dos suplementos utilizados com objetivo cardiometabólico:
- Arroz vermelho fermentado: Algumas preparações demonstram efeito hipocolesterolêmico, mas ainda não há comprovação robusta de redução de eventos cardiovasculares.
- Ômega-3 e PUFAs: A suplementação com ácidos graxos poli-insaturados não demonstrou redução consistente do LDL-C. A exceção é o icosapent etil purificado em altas doses, utilizado em contextos específicos do tratamento das dislipidemias;
- Fitoesteróis: Os fitoesteróis conseguem reduzir a absorção intestinal de colesterol e podem diminuir o LDL-C em cerca de 10% quando utilizados em doses de até 2 g por dia. Mesmo assim, ainda faltam estudos sobre o impacto direto na redução de infartos, AVC ou mortalidade cardiovascular.
O que muda na prática clínica?
A atualização da ESC/EAS nas diretrizes do tratamento da dislipidemia mostra uma tendência forte de individualização do risco cardiovascular.
O foco deixou de ser apenas o valor isolado do colesterol e passou a considerar contexto clínico, genética, inflamação, histórico familiar e biomarcadores adicionais.
Por isso, o acompanhamento nutricional pode ser decisivo no controle do colesterol, triglicerídeos, pressão arterial e outros fatores ligados à saúde do coração.
Agende sua consulta nutricional e tenha uma estratégia personalizada para prevenção cardiovascular e melhora da qualidade de vida.






